bonequinha de luxo

Depois de mais de 40 anos revi na tevê, o filme "Bonequinha de Luxo" (Breakfast at Tiffany´s) da Audrey Hepburn. Três coisas boas do filme, a própria Audrey Hepburn, linda, linda e super elegante no papel da garota de programa Holly, a música
Moon River do Henry Mancini e a direção de Blake Edwards. Duas coisas que não deveriam fazer parte do filme: primeira, Mickey Rooney, talvez no ponto mais baixo da sua carreira, fazendo um papel caricato e ofensivo (mesmo naquela época) de um japonês, totalmente descartável; e a segunda, quando a Holly está aprendendo português, porque planeja ir pro Brasil e as lições são em português sim, mas de Portugal. Poderiam adaptar a história fazendo com que a personagem estivesse planejando ir a Portugal. Infelizmente, assim tem sido o tratamento "especial" de Hollywood quando se trata de qualquer outro país. Sem nenhuma sensibilidade ou respeito pela cultura de outros países. E estes estereótipos vão se perpetuando e chegam até a influenciar nos rumos que o mundo está tomando, pois até o presidente da maior potência global parece ter o cinema americano como a sua maior fonte de informações, pelo que estamos vendo aí...
Itiro Takahashi
Fragmentos de Estudos Tardios
uma parte da história da minha vida,
de Kotaro Takahashi

Dia 29 de abril de 1934. Nesse dia que era a data comemorativa do aniversário do imperador do Japão, coincidentemente iniciou-se a triste experiência da minha vida como imigrante. Era como se fosse a abertura do primeiro ato de uma representação.
Já antes da viagem, em três anos consecutivos perdi as duas irmãs mais novas e a minha mãe. Meu pai que ficou numa profunda tristeza, decidiu abandonar o trabalho que não ia bem e realizar o projeto de imigração, com vistas à recuperação. Casou-se novamente e após concluir as formalidades para a imigração, partiu com a família para o Brasil.
Chegando em Santos fomos levados às terras da Linha Mogiana, onde nos estabelecemos. Nem se passaram seis meses, meu pai e meu irmão mais novo ficaram acamados, acometidos por um doença endêmica. Minha madrasta que estava grávida na época, passava diuturnamente cuidando dos dois doentes e eu, com quinze anos de idade trabalhava na lavoura. Com a ajuda do meu irmão, de doze anos, assumimos a responsabilidade de uma empreitada. Era angustiante trabalhar durante o dia na lavoura, dedicando de corpo e almo ao trabalho e ao chegar em casa, encontrar os dois doentes, sem ter mesmo a possibilidade financeira de levá-los a um médico.
Logo ao chegar ao Brasil já sentia frustração e desilusão. Num ambiente sombrio como esse, nasceu a minha irmã e logo em seguida faleceu um dos meus irmãos. Meu pai também veio a falecer e assim, em menos de um ano, duas pessoas da família foram sepultadas no Brasil. Como a vida entre nós que ficamos, não era sempre agradável, a madrasta resolveu casar-se novamente, levando consigo o filho do primeiro casamento e a filha que acabara de nascer.
Restamos somente eu e o meu irmão. Rememorando o passado, chegamos ao Brasil trazendo nas costas a triste sorte e agora ficamos nessa situação de infortúnio como se tivéssemos sido abandonados no campo deserto de uma terra desconhecida.

Precisávamos seguir adiante e afortunadamente fomos contratados por uma família conhecida de japoneses, que estavam à procura de braços para trabalhar. Ficamos com essam família por dois anos. Guardamos todo o salário ganho nesse período e com esse capital resolvemos arrendar uma terra e tornamo-nos independentes. Fomos nos dedicar à plantação de algodão. Na época eu tinha 18 anos e o meu irmão, 15. Somamos os esforços e trabalhamos arduamente durante cinco anos numa colônia distante da cidade.
Mais tarde, eu me casei e depois o meu irmão também se casou. Separamos a família e o trabalho. Meu irmão que sofrera desde a tenra idade estava feliz após ocasamento, porém aos 39 anos de idade veio a falecer, deixando quatro filhos. Atualmente, esses quatro sobrinhos estão bem, vivendo felizes, cada qual com a sua família abençoada. Pelo menos isso me traz consolo e serenidade para minha alma.
O tempo foi se passando e anos depois, nos mudamos para São Paulo, onde abri uma loja de bazar. Os sofrimentos do início da imigração e os acontecimentos da época diluíram-se com o desenrolar dos anos, tornando-se uma saudosa recordação e consegui finalmente concretizar o antigo sonho de voltar a estudar numa escola.
Estávamos no ano de 1975. Já se passavam 41 anos desde a imigração, a família foi crescendo e tínhamos cinco filhos homens e vários netos. Todos eles viviam felizes embora em famílias simples, gozando de boa saúde. Eu também já chegara aos 56 anos de idade e naquele ano resolvi iniciar os meus estudos, num curso noturno.
Na época, tomei conhecimento da existência de cursos do Mobral instalados em igrejas de bairros como cursos de serviço social. Entrei num desses cursos, no 3º. ano primário e no segundo semestre cursei o 4º. ano. Passei nas provas do final do ano e obtive o diploma de conclusão do curso. Com isso, no ano seguinte estudaria como aluno do ginásio.
Em 1976 passei a cursar o 1º. ano do curso ginasial intensivo da Escola Santa Inês. A idade mínima para matricular-se nesse curso era 16 anos. Em um ano concluí os estudos de dois anos. Haviam vários alunos de mais idade entre os colegas, porém nenhum com a idade avançada como eu. Estava muito feliz em poder me comunicar com os colegas mais jovens, sem mesmo sentir a diferença da idade. Para chegar à escola jantava rapidamente, após fechar as portas da loja. Quase na hora do início das aulas entrava na classe junto com o bando de jovens estudantes. Era um ambiente onde se podia estudar com o espírito radiante e rejuvenescido, sem sentir o complexo de inferioridade por causa da idade.
Entre as disciplinas, Matemática era fácil de entender, porém o difícil mesmo era Português. A Gramática parecia ser complicada mesmo para os brasileiros. Na ocasião da primeira prova de Português, o professor ordenou que todos os alunos levantassem os braços e mostrassem as palmas das mãos. Eu não entendi por que motivo, mas depois descobri que alguns tinham as mãos cheias de letras miúdas escritas. O professor mandou esses alunos lavarem as mãos, mas não houve nenhuma repreensão. Era apenas uma cola ingênua. Dessa forma, observando a astúcia dos alunos, me vi totalmente entrosado no meio dos colegas. Nas provas do final de junho para passagem para o próximo ano fui aprovado em todas as matérias.
Em agosto comecei a frequentar o 2º. grau. Durante as aulas havia quinze minutos de intervalo e nesse horário a lanchonete ficava lotada. Esse era o lugar de intercâmbio entre os alunos, ao mesmo tempo de namoro e confraternização dos jovens exaltados. Alguns alunos iam para a aula diretamente do trabalho e outros, não tendo tempo e recursos, chegavam apenas com refeições rápidas. Lembro-me que os meus filhos também levavam essa vida no tempo de estudante. Eles saíam cedo de casa e entre o emprego e as aulas controlavam o precioso tempo. No segundo semestre também passei diretamente nos exames para a classe seguinte, sem a necessidade de me submeter à 2ª. época de provas. Fiz a matrícula para o 3º. ano e entrei de férias até o final do ano.
Era 1977. Foi o ano em que cursei o 3º. e o 4º. anos do ginásio. Posso dizer que sentia no canto da minha alma um certo orgulho e autoconfiança em poder passar os dias insubstituíveis, durante o dia como comerciante e à noite como estudante, sem precisar me envergonhar da minha idade. Embora restringindo o tempo dedicado ao comércio, o dia era bastante atarefado, parecia existir em mim algo me encorajando a cumprir o objetivo. O aproveitamento era favorável e a saúde excelente, não perdendo dos jovens. No final do ano consegui o diploma de conclusão do curso ginasial.
Estávamos em 1978. Esse foi o ano dos 70 anos da imigração japonesa. O Jornal São Paulo Shimbun estava recrutanto trabalhos sobre a experiência de vida dos imigrantes. Eu concorri com um trabalho, aproveitando uma parte do tema sobre os estudos tardios a que eu estava me dedicando. Como resultado, não houve premiados, mas somente menção honrosa na qual eu fui incluído.
Nessa época alguns dos meus amigos me perguntavam para que finalidade eu continuava estudando à noite, e se haveria algum retorno profissional. Era uma curiosidadeque atiçava a todos. Eu dava respostas vagas, mas na verdade existia dentro de mim um fundamento na concepção da idéia. Na época da imigração fui obrigado a deixar os estudos no Japão apenas com o primeiro ano do curso ginasial e vir para o Brasil para me dedicar à lavoura, sempre na linha de frente. No fundo da alma eu sentia certa nostalgia da escola. Ao me mudar para São Paulo fiquei com as noites livres, além de ter meio período de descanso aos sábados e aos domingos, o dia todo. Lembro-me que quando trabalhava na pequena cidade do interior, não descansava aos sábados nem aos domingos e trabalhava também à noite, no bar de minha propriedade. Comparando-se o tempo disponível das duas épocas havia uma diferença entre o céu e a terra. Eu pessoalmente tomei essa iniciativa simplesmente para dar cor à vida e também como uma forma de lazer, já que a minha esposa concordou de boa vontade. E foi assim, que resolvi voltar aos bancos escolares com o coração radiante.
Quando passei para o curso colegial, como era de se esperar, senti o nível subir de repente. Muitas vezes tive a ajuda dos filhos nos deveres escolares. Sabia que os pais acompanham os estudos dos filhos, mas eu nunca tinha ouvido dizer que os pais estudavam, tendo a ajuda dos filhos. Achei isso uma raridade muito divertida. Nesse ano também passei no 1º. ano e no 2º. sem dificuldades. Fiquei feliz porque o esforço estava valendo a pena.

Estávamos em 1979. Foi o último ano do meu curso colegial. Nesse ano tive a agradavel notícia de que ao lado do Colégio Santa Inês iriam contruir o prédio do Curso Obetivo para cursinho e uma filial do Colégio Pinheiros, com previsão para o início das aulas no ano seguinte. Já me achava sonhando como aluno do cursinho para o vestibular. No mês de junho foram realizadas as últimas provas do curso colegial, nas quais fui aprovado em todas as matérias e assim, obtive o diploma colegial. Foi o resultado do meu esforço contínuo. Senti orgulho de mim mesmo por ter conseguido estudar sem interrupção ao mesmo tempo em que já pensava na meta do próximo ano.
Ano de 1980. Com ânimo e persistência continuei levando uma vida não convencional, agora como estudante de cursinho misturando-me no meio de jovens de intensa vitalidade. Percebi nítida diferença no grau de conhecimento e capacidade intelectual entre os antigos colegas e os do cursinho, pois todos estes tinham como objetivo ingressarem numa faculdade. Só havia alunos excelentes. Os professores também eram de alto nível, as aulas eram ministradas usando-se métodos específicos e palestras calorosas. Frequentemente faziam-se exames simulados, cujos resultados eram esclarecidos com respostas adequadas. Existia perfeita integração e seriedade entre os educadores e os educandos. Eu que tinha nível mais baixo de conhecimento, me sentia deslocado nesse ambiente de intensa energia.
Em todo o caso, me inscrevi nas duas áreas de vestibular, uma para Letras da USP, na língua japonesa e a outra para o Serviço Social da FMU. Fui aprovado na primeira fase das provas da USP mas fuireprovado na segunda. Dias depois me foi esclarecido que as notas tinham pesos diferente s para cada área, como Medicina, Engenharia e Letras. A Medicina dava maior peso para Ciências Naturais e Biologia e a Engenharia, para Matemática e Física. Na área de Letras o peso era maior na língua portuguesa, principalmente redação. Eu não podia esperar ser aprovado, pois o meu ponto fraco era justamente essa redação. Fui aprovado na segunda opção na FMU. O meu nome apareceu em jornais, na lista dos aprovados. Desde o início não tinha a intenção de frequentar as aulas devido ao meu trabalho, mas como fui aprovado, decidi fazer a matrícula e experimentei a realização de ser estudante de faculdade, apenas por uma semana.
A minha experiência de estudos tardios chegou ao ponto final. Se eu consegui frequentar os cursos noturnos durante cinco anos foi graças ao apoio afetuoso da família e à sorte de ter tido saúde.
Exatamente nessa época o proprietário do prédio onde funcionava a minha loja pediu o imóvel, de forma que decidi cerrar as portas do comércio, mesmo porque eu já havia me aposentado. Ainda nessa época, quando já levava a tranquila vida de aposentado tive a oportunidade de trabalhar no Consulado do Japão em São Paulo, como escrevente. Eu já passava então dos meus 70 anos de idade, quando pude sentir a alegria de poder aplicar o que aprendi durante os meus estudos noturnos, seja no conteúdo, seja na tradução. Foram seis anos e meio de trabalho demasiado bom pra mim e na ocasião da minha demissão recebi do cônsul geral uma carta de agradecimento. Foi uma demissão honrosa com tratamento mais do que merecido.
Dessa forma, passaram-se os 70 anos da minha vida no Brasil. O adolescente de 15 anos da época da imigração, agora já é um idoso de 85 anos. Rememorando a minha vida desde a chegada ao Brasil, o sofrimento do início parece ter cultivado em mim o espírito de tenacidade. O fato de ter trabalhado em pé diuturnamente contribuiu para forjar as pernas e quadris fortes. Se eu consegui no dia do meu aniversário de 83 anos participar e completar a caminhada pela manhã num trajeto de 30 km, acredito que foi devido ao treinamento feito habitualmente.
Na vida atual remanescente que parece receber o reflexo do brilho de um crepúsculo vespertino, estou grato em poder contribuir em diversas áreas de atividades, aproveitando os poucos momentos que me restam até o sol se esconder.
Redigido em março de 2004.

Kotaro Takahashi é natural de Yamagata, foi agricultor, comerciante - dono de um bar em Duartina e mais tarde, de um bazar no bairro de Pinheiros em São Paulo. Teve cinco filhos, todos homens e uma vida rica em experiências como se vê pela amostra acima. Vive em São Paulo com a família de um dos seus filhos. Forte como sempre.